É Agora que Começa - Parte I - Terça-feira monótona
Jorge andava pelas ruas da cidade observando o movimento, era uma
tarde de terça-feira tão quente quanto de costume e entediante como sempre,
pessoas indo e vindo, a mesma coisa de sempre. Uns andavam olhando as vitrines,
outros atendendo aqueles que observavam as vitrines, alguns andando até seus
bancos para pagar suas contas, outros tocando instrumentos ou fazendo shows de
rua para ganhar alguns trocados.
Parecia que o mundo estava um tédio e para um jovem de 16 anos era
ainda mais frustrante, devia estar jogando futebol, videogame ou aprontando
algo por aí, mas nada disso lhe interessava, parecia que nada o empolgava nessa
terça-feira. Após andar por algum tempo sentou-se no banco em meio ao calçadão
central e continuou a observar. Olhou para frente e algo chamou sua atenção,
atravessando a multidão, pequena, jovem e loira de pele branca, quase dava para
ver suas veias de tão clara que era.
O floco de neve em meio à tarde quente parou na sua frente, sorriu
e seus lábios começaram a mexer, mas Jorge não ouvia nada. Assim que aquela
jovem começou a falar, todos os sons desapareceram, ele não ouvia as buzinas
dos carros, as motos acelerando, vendedores ambulantes gritando e nem o que ela
falava olhando fixamente para ele com seus grandes olhos verdes.
- Pronto, está me ouvindo agora? Disse ela ainda sorrindo e
olhando fixamente para ele. Jorge deu um salto do banco de pedra em que estava
sentado, olhou ao redor e ainda continuava sem ouvir os sons da cidade, apenas
ouvia a voz dela.
- Quem é você? O que está acontecendo? Um desespero subia do seu
estômago.
- Alguém tinha que vir
lhe avisar, você ainda estava perdido. Ela continuava sorrindo para ele.
- Do que você está
falando? Eu nem seque te conheço.
Antes que ele pudesse lhe dar as costas e ir embora ela parou de
sorrir e indagou.
- E quem é que você
conhece Jorge? O silêncio se mantinha, parecia que estavam em uma sala aprova
de som, somente os dois, mas rodeado de prédios, pessoas e veículos para todos
os lados.
Jorge olhou para ela com uma cara de dúvida e espanto, realmente,
não conhecia ninguém, não lembrava nem como havia chegado ali, era como se em
um instante toda sua existência tivesse sumido de sua cabeça, sem memórias,
sabia seu nome, mas não sabia o porquê de saber seu próprio nome, nem quem lhe
dera ele.
- O que está
acontecendo? Perguntou a ela, segurando seus braços com força.
- Ora, parece que
quanto mais jovem, mais sem noção.
- Por que não escuto
nada além da sua voz, quem é você? Meu Deus, o que está acontecendo?
Jorge soltou os braços dela, o desespero que sentia transformou-se
em um vazio que tomava seu corpo, no fundo, ele sabia o que estava acontecendo,
mas sua mente ainda não aceitava, começou a chorar e sentou-se novamente no
banco.
A jovem colocou a mão esquerda em seu ombro e usou a outra para
levantar sua cabeça, olhou nos olhos dele de novo e voltou a sorrir.
- Fique calmo Jorge morrer é assim mesmo, no começo sente um
vazio, perde-se o sentido a memória, mas tudo vai se resolver.
Morrer, morrer, sim, era isso que havia acontecido. Os sons
começaram a voltar, o barulho da sirene foi o primeiro a chegar em seu ouvido,
ela ofereceu a mão para ajudá-lo a levantar e caminhou com ele até a esquina
mais próxima. Uma multidão na calçada e uma ambulância e carros de polícia na
rua impedindo o trânsito. Ela ajudou ele a passar pelas pessoas e chegar ao
centro do alvoroço.
- Não precisa ter medo de olhar, você não se machucou muito por
fora.
Jorge olhou para baixo e viu a poucos centímetros de distância,
seu corpo deitado no chão, imóvel e sem cor, seu celular tocava ao lado de seu
corpo.
- Eu devia ter olhado para frente, mas não olhei, não vi o carro
vindo! Suas memórias voltavam pouco a pouco. - Me lembro só de ouvir a buzina e
ele freando, mas não deu tempo nem de ver ele chegar.
Ele já tinha parado com o choro e estava apenas em choque, inerte
e narrando o que ia voltando em sua mente.
A jovem albina se aproximou dele.
- Já eu, foi por afogamento, mas isso foi a muito tempo,
vem, vou te mostrar o que nos aguarda depois desse mundo e para que comece a se
sentir melhor, digo para você que a partir de agora é que fica interessante, é
a partir de agora que a vida realmente começa.
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